domingo, 24 de novembro de 2013

As mancadas de quem não se entende com crianças

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Pessoas que têm jeito com criança agem de diversas formas. Umas são didáticas. Simplificam bastante as ideias e chegam como tradutoras de um mundo incrível que elas desconhecem. Contam novidades. Outras ganham com empatia. Crianças quando recebem atenção de verdade se afeiçoam. As divertidas têm passe livre para o universo infantil. Com graça, estabelecem rapidamente uma ponte com o outro. O humor faz o emburrado gargalhar e o triste sorrir. Traz uma nova perspectiva. Deveria ser vendido aos quilos.

Há muitas maneiras de agradar uma criança, mas começo a desconfiar que são poucas e quase sempre as mesmas mancadas capazes de condenar ao fracasso a interação entre adultos e pessoas recém-chegadas ao mundo. São atitudes que as afastam, tais como: 
Ignorar a presença da criança

Nunca mais vou esquecer de um atendimento prestado numa emergência em Brasília. Nossa filha mais velha tinha pouco mais de 2 anos e era o que podemos definir como uma criança colaborativa. Não encrencava nas consultas médicas. Boazinha que só.

Naquela noite, no entanto, uma febre de quase 40 graus não lhe deixava em paz e nos preocupava. Ao entrarmos na pequena sala para o exame clínico, fomos recebidos por uma pediatra de jaleco branco em pé e meio de costas. De costas continuou. Pegou o bloco, a caneta e começou a nos interrogar, sem levantar o rosto para cumprimentar. Ignorou a criança. Eu me perguntava em que momento ela olharia para minha filha não só para dizer olá, mas para verificar o semblante caído, a disposição geral. O primeiro contato visual foi travado na hora do exame. De chofre, a médica pediu "abre a boquinha pra tia". Conforme esperado, a criança não abriu a boquinha. Não só porque a médica não era sua tia mas porque não tinha passado por nenhuma preliminar de bom gosto. A consulta não terminou bem, como vocês podem imaginar. Num primeiro momento, eu e meu marido tentamos convencer a criança a deixar-se examinar, diante de uma médica cada vez mais impaciente. "Se ela não colaborar, não vai dar para examinar", disse a médica, um tanto irritada, despertando meus instintos protetores. Aí a coisa desandou porque solicitei outra pediatra e deixei uma pista para a moça tentar melhorar da próxima vez. "Você sequer olhou para ela!".
Pode ser que a pessoa tenha notado a presença da criança, mas muitas vezes age como se não a tivesse visto. Olha rapidamente, diz “que bonitinha“, daí vira pro adulto do lado e pergunta “qual o nome dela? Quantos anos tem?“. 

Na pressa de sermos educados, vamos logo respondendo mas não deveríamos. Esse tipo de atitude só vale se a criança não puder ou não souber falar ainda. Ou se deixar claro que não tá a fim de papo. Daí a conversa segue no andar de cima. Lembre-se: dê oportunidade para a própria criança falar de si mesma.  
Forçar intimidade
Esse é um pecado muito comum. A pessoa acaba de ser apresentada ao seu filho, daí pede beijo, abraço e outras provas de amor à primeira vista. Gente sem-noção tem pra todo lado, mas o nível de autopercepção cai muito diante dos pequenos. Queria uma explicação científica para isso. As pessoas se sentem desobrigadas de seguir certas etiquetas sociais com elas. Por quê?

É como se as crianças não tivessem direito a serem reservadas. Se ela se recusa a dar um beijo, é retraída. Se não desenvolve a conversa proposta - mesmo que chata - é tímida. O responsável tenta explicar, "não, ela não é sempre assim não, não é Fulaninha?", mas Fulaninha já deu as costas, fechou a cara e a frase se perdeu antes do fim.   
Crianças são rotuladas sem dó nem piedade. São presas fáceis para estereótipos.

Sem perceber, muitos adultos cometem um erro aparentemente inofensivo. Comportam-se como se intimidade fosse item da nossa carga genética. "Sou amiga da sua avó", diz a senhora boazinha, se apresentando. Ótimo. Eis uma informação objetiva para a criança. Aí a pessoa completa: agora senta aqui no meu colo e vem cá me contar uma coisa...Oi?
Pode ser que funcione, mas ninguém herda amizades dos avós, dos pais, dos tios ou de quem quer que seja. Para a criança, aquela pessoa, íntima da família há décadas, é uma estranha. Tem que entender isso.

Muitas vezes, por educação, queremos que nossos filhos sejam a encarnação de um manual de etiqueta, o que seria ótimo, eu sei. Temos que lembrá-los o tempo todo certos padrões. Cumprimentou? Disse “bom dia“?

Também sofro quando minhas pequenas me deixam com cara de tacho e resolvem emudecer por completo diante do inesperado. Mas preciso reconhecer que muita gente espera que o cumprimento evolua para uma incrível manifestação de apreço e sociabilidade. Não dá. Cachorrinhos fazem festinha para o primeiro que aparece. Filhote da gente, não. 
Menosprezar o gosto das crianças

Durante muito tempo, acreditei que tratar mal as crianças era bater ou simplesmente não cuidar delas com carinho. Essa é a dupla do mal que costuma assombrar famílias com bebês em casa. E é por essa preocupação que damos início à nossa nova rotina de pais. E se a babá perder a paciência com ela? For ríspida? E se a assistente da creche não tiver carinho com meu bebê? E se essa vizinha bondosa que topou me ajudar for do tipo que grita com um incapaz porque depois ninguém irá saber?

São muitos "e se" aterrorizantes que povoam nossa cabeça. Um bebê não conta depois o que se passou na nossa ausência. Com o tempo percebi o quanto estava enganada. Há muitas outras maneiras mais sutis de se tratar mal uma criança.

Faça com que elas sintam que você é uma pessoa estranha dentro de casa. Cuide mas não brinque. Alimente mas não as conquiste. Menospreze as brincadeiras delas e ignore suas preferências, mesmo as mais inofensivas. 
"Não, você não vai mais beber água no seu copinho rosa porque EU não quero", é uma frase que expressa uma infeliz necessidade de alguém exercer o poder em cima do seu filho. Soa como tortura. E é. Ao ignorar a preferência da criança sempre, um adulto estará erguendo uma invisível e intransponível barreira nesse relacionamento fadado ao fracasso.  
Dar apelidos pejorativos
Quando eu era pequena, tinha uns "tios" que adoravam me chamar de bicho-do-mato porque eu nunca queria papo com eles e me escondia atrás da minha mãe. Quanto mais eles insistiam no apelido, mais eu fugia deles. Achava insuportável ser comparada a um bicho, mesmo que esse animal habitasse o mundo das metáforas. Felizmente o apelido não pegou, bicho-do-mato cresceu e passou a ganhar a vida conversando, ouvindo e falando bastante com as pessoas. Que coisa. Você pode até estar achando que era bullying. Esquece. Era uma brincadeira de mal gosto mesmo, do tipo que ainda vemos muito por aí.
 
Certa vez, vi um menino de uns quatro anos tentando chutar um adulto. O homem ria e continha o garoto com o braço esticado evitando sua aproximação pela testa.

“Para, cabeção, qual é, é brincadeira“ - dizia o adulto, enquanto a criança continuava demonstrando toda sua indignação num rompante de raiva e chutes.

Eu também tive vontade de chutar.

A capacidade de uma criança absorver certas piadas que mexem diretamente com sua autoestima é muito frágil. Diria até nula em muitas circunstâncias. Xingamentos descem mal, mesmo quando eles se afastam totalmente de uma análise fiel da realidade. É muito fácil ofender alguém cujo repertório de respostas para a vida ainda está em formação.  
Falar em tatibitati

Soar doce é uma preocupação natural da parte de quem quer se aproximar de um ser delicado. Bebês são delicados e costumamos falar doce com eles, o que não significa falar errado, trocando o R pelo L, o C pelo T e por aí vai. Fica engraçado, mal não faz, mas depois que o bebê cresce e vira uma criança...

No elevador, a ascensorista puxa conversa com uma menina, 2 anos e pouco presumíveis.
– Tê tá tomanto o tuquinho todo, tá?

– Não estou entendendo o que você tá falando – respondeu a criança, que soltou o canudinho para tentar se comunicar da melhor maneira possível com a moça que falava na língua do T.

Para irritar crianças maiores, não precisa nem apelar pro tatibitati. Basta o tom, aquele típico de uma infantilização forçada, que foge do natural e irrita até quem está perto. As crianças se fecham contrariadas. Não raro, você terá que fazer cara de paisagem quando seu filho lançar para você aquele olhar de quem vai dizer em um minuto: por que estão falando assim comigo?
Agora sendo realista: estabelecer uma conversa com crianças pode ser um desafio, ainda mais se você não estiver (mais) acostumado com elas. Muita gente não sabe o que fazer, fica visivelmente desconfortável. Mesmo sendo mãe e tendo dois exemplares em casa, sei que lidar com os filhos dos outros mexe com nossas convicções. Será que minhas táticas vão funcionar com eles também? 
 
Minha dica é trate crianças como pessoas normais. Não infantilize o vocabulário nem fique procurando frases muito simples pra se fazer entender. Se elas não entenderem, vão perguntar. Não subestime a inteligência infantil. Diminua apenas o seu tamanho. Se ela te olhar no olho, tanto melhor. Já será uma baita ajuda. Se a criança te surpreender com alguma pergunta impertinente ou constrangedora, lembre-se que o humor é sempre uma ótima saída com os pequenos. 
• Você sempre foi careca?

• Quando eu era bebê tinha mais cabelo! Eles estão caindo.

• De todas as partes do seu corpo? Até do...?   
Reconheça o valor da curiosidade. “Boa pergunta!“

“Adultos que sabem lidar com criança não sufocam seu novo conhecido com entusiasmo demais nem começam de imediato um interrogatório investigativo (Quantos anos você tem? Onde você estuda?). Na realidade, mantêm uma certa distância primeiro, deixando que a criança aqueça a relação, talvez descobrindo algum assunto de interesse dela ou em comum e perguntando a ela sobre isso“, diz Alfie Kohn, em Unconditional Parenting, livro que inspirou duas colunas anteriores sobre castigos e recompensas.

Os adultos que têm jeito com criança prestam atenção e escutam o outro, mesmo que ele tenha menos de um metro e trinta. O nome disso é respeito.

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